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Ciça

Braga

 

Culpa

Culpa é um sentimento que causa o ódio de si mesmo e com isso a autopunição e o desequilíbrio emocional. Isso acontece porque geralmente nasce de uma exigência, de algo que não queremos fazer e com isso nos leva a submissão. A culpa é o método mais eficaz de fazer com que uma pessoa se submeta aos caprichos ou desejos de outra pessoa. Esse sentimento recebeu requintes medievais por muitas religiões, primeiro fantasiavam a culpa de forma a bater por dentro nas pessoas, depois garantiam que tinham o elixir do perdão ou da salvação, muitas vezes deixando o sentimento de fé em segundo plano.


O sentimento de culpa ganhou também requintes familiares e muitos pais utilizavam-se desse método para conduzir seus filhos, educando-os através da chantagem emocional, ou do “... se confessar que teve culpa eu perdôo-o”.


Como a culpa é um sentimento que não nasce dentro de nós, ela precisa ser implantada por outra pessoa e em seguida ser contraída como uma doença, quanto mais sugestionável ou ingênua for a vítima, maior é seu poder de autodestruição. Na medida que vai sendo cultivada, vai se criando maior dependência ao locutor, aumentando o desconforto interior e com isso maior submissão.


Quando não fazemos algo que gostaríamos de ter feito ou que poderíamos ter feito, sentimos um pequeno desapontamento que subitamente se vai, a isso chamamos de remorso. Agora quando nos é exigido algo que não temos vontade, que não temos capacidade ou que não temos vocação para fazer e por falsa compreensão exigimos isso de nós mesmo, vem em forma de condenação a culpa de não termos conseguido.


Cada pessoa tem seu próprio ideal, seu limite, sua vocação... “Muito antigamente” era comum o pai ou a mãe, quando não obtinham um resultado louvável segundo seus desejos, impor algo para seus filhos utilizando-se de técnicas culpáveis do tipo: “Deus castiga...”, “isso é pecado...”, “eu vou morrer de tanta mágoa...”, “você quer matar a nós dois...” ou ainda punindo com ameaças de falta de amor ou proteção, embaralhando sentimentos e criando assim uma confusão de idéias e lógica de raciocínio, através do desconforto emocional.


Na medida que as pessoas culpáveis iam se frustrando em não conseguir ser o outro, iam conquistando mais submissão aumentando o sentimento de culpa e anulando seu próprio Eu. Conseqüentemente adquiriam uma personalidade robotizada ou de eterno revoltado.


Toda vez que essas pessoas tinham que passar por aqueles momentos, acabavam se culpando. Adquiriam uma doença hereditária incurável, levando esse sentimento mesmo quando adulto, além de transmiti-lo, inconscientemente, para seus descendentes.


A década de 1960 foi um grito de basta, mas como não havia uma técnica para superar isso vieram as drogas. Na verdade hoje sabemos que para se livrar da culpa basta fazer apenas o que nos é correto, fazer o que não causa danos a nós ou aos outros, parar de fazer o que bate forte em nosso interior, parar de fazer o que anula nosso livre arbítrio, fazer apenas o que está dentro da nossa capacidade de fazer ou aceitar.


Crer em uma divindade que castiga, que vamos pagar por nossas ingenuidades, apenas criou pessoas que não se identificam, pessoas que não acreditam em seus próprios sentimentos, que fazem apenas o que é bom para os outros. Com isso, essas pessoas vão vendo a vida passar, vendo os outros seguirem seus caminhos, restando para si apenas a solidão, criando vácuos. Nada vai ficando, a não ser suas culpas causando doenças psicossomáticas. Não é a culpa a única companheira do solitário, mas sim se torna solitário quem acredita na culpa, quem reprime a si próprio, quem se deixa levar pelas palavras e pensamentos da ignorância dos outros, quem entra no jogo daqueles que desejam exercem um poder sobre os outros, quem cedeu a chantagem emocional das outras pessoas, quem acreditou que podia fazer aquilo que era impossível ser feito...


A culpa nada mais é que o desejo que os outros tem em dominar outra pessoa, cultivar esse sentimento é aceitar essa dominação, é responsabilizar-se pelos remorsos dos outros, pelas incompetências dos outros, pelas frustrações dos outros...


Nós podemos apenas colaborar com os outros conforme a nossa vontade ou afinidade, agora se submeter à vontade dos outros é abdicar ao livre arbítrio, é perder o amor próprio.


Sentir remorso faz parte de nosso aprendizado, por que não é errado errar. O remorso é apenas um aviso que algo está para ser corrigido, e não imperativo como a culpa. Ninguém foi criado para errar, ou pagar por erros dos outros, ou para ser condenado. Nós existimos para fazer o nosso melhor e para aperfeiçoar o nosso melhor através de nossos erros e acertos, segundo a nossa consciência e a nossa capacidade evolutiva.


Na verdade, sempre fazemos o melhor e na medida que aumentamos nossas vivências adquirimos uma consciência mais ampla e com isso aprimoramos nossos conceitos e evoluímos.


Devemos aproveitar cada momento de nossa vida para melhorar nossas atitudes sem medo de que alguém nos culpe, sem medo ser sermos com isso egoístas, mas sim por que nos leva a nossa prosperidade e a nossa evolução.


A vida nos pede apenas que façamos a nossa parte, a nossa função, a nossa obrigação... Não cabe a nós viver ou resolver a vida dos outros, podemos apenas orientar, ensinar, ajudar os outros, mas nunca conduzir os outros ou deixar ser conduzido.


Não importa o que aconteceu no passado, pois o passado não nos pertence mais, o que nos pertence é o presente. Tudo que não podemos modificar não nos pertence mais. A culpa não nos pertence, por isso podemos abandoná-la a qualquer momento. Apenas os erros ou desatinos que cometemos no passado e ainda podemos corrigir nos pertencem, e assim que forem corrigidos teremos o perdão da Justiça Divina.

 

Sérgio Luiz Giannico - InforMark

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